III

Depois de entregar o seu filho M. de apenas 3 anos no infantário ,T. Dirigiu-se á escola de B .
B era uma menina de seis anos linda, inteligente e frequentava o primeiro ano da escola primária da localidade.
Para a sua idade B. era uma criança deveras responsável , amiga do amigo e adorava a escola á qual era sempre muito assídua e aplicada .
Já M. , o travesso rapazinho de três anos apenas adorava praticar travessuras, era um excelênte dorminhoco mas de uma simpatia e um coração bastante generoso.
Assim como B . , os seus cabelinhos aos caracois reluziam tal qual ouro puro , emanando uma beleza impar ao seu rosto rechonchudo e risonho.
T. sorria-se ao despedir-de de B. , observando os seus “cachinhos”dourados a saltitar enquanto esta corria para dentro do átrio da sua escola.
T.respirou fundo ...
Tinha um árduo dia pela frente e não sabia sequer por onde começar...
Começou por pensar que tinha apenas 26 anos... e um fardo a carregar , o qual ainda não sabia exactamente o peso...
Resolveu ir tomar um café ao sitio do costume...
Um estabecimento á beira rio...com uma linda esplanada ,onde se podiam absorver as brisas mais frescas que emanavam daquelas águas limpidas e que agora se encontravam calmas na sua enorme extensão...
A empregada surgiu já com o café , pois era hábito a presença de T. áquela hora e, costumeiro o seu pedido.
Fechou os olhos por momentos , como que a querer desaparecer na escuridão daquele que agora mexia depois de haver inserido dois pacotes de açucar no seu interior...
Era-lhe necessário aquela quantidade de açucar pois o seu sangue assim lho pedia...melhor dizendo... exigia!
Certo que não deveria ser com café... mas T. era teimosa e não abdicava do seu café matinal , ainda que soubesse que lhe era prejudicial á saúde.
Naquele momento tudo lhe parecia ser prejudicial e... mais café, menos café... não iria adiantar nem atrasar nada ...
Olhou para o seu lado e reparou que estava ali o jornal diário, pousado na mesa ...
Pegou-lhe e sem saber muito bem porquê, começou a folheá-lo...
Quando deu por si, estava a vasculhar a secção de empregos...
Uma luz acendeu-se na sua mente e disse para consigo:
-Porque não?...
Continuou a vasculhar , mas nada de interessante surgia.
Quase a desistir reparou num anuncio , onde pediam uma empregada da aldeia,ofereciam alojamento e bom salário.
Sem reservas , guardou o número , o nome da senhora mencionada , deixou o dinheiro para pagar o café na chavena ,sorriu acenando á empregada e ,saiu...
Pensativa sobre a resolução que iria tomar...sobre o suposto telefonema que iria fazer...sobre ir para uma terra que conhecia apenas de nome ou mesmo de passagem por casa de uns familiares ...ir morar sabe-se lá para onde...
Andou algum tempo , passeando-se sobre o belo jardim onde tantas vezes levava os seus filhos ,pensando qual seria o seu futuro, as suas reacções...
E eis que lhe aparece uma cabine telefónica...
Telefonar ou não... aventurar-se ou não?...Estaria certa no que estava a fazer?
Eis a questão...

II



A noite findou , o dia raiou ,com ele os primeiros sons de um dia que continuava chuvoso.
Relembrava a noite atormentada á qual a sua vida presente entre papel escorregadio e negro , laçarotes espinhosos ,mandara embrulhar e consigo levar, , pois dela não se queria esquecer para mais tarde , quem sabe , entre sorrisos a pudesse relembrar num futuro ao qual se iria agora lançar...
Levantou-se da cama ,e, reparou que havia adormecido vestida...
Tratou de despir aquela roupa suada pela temperatura de um corpo dormente , eléctrico,nervoso mas confiante.
Dirigiu-se ao chuveiro ...
com toda a certeza um bom duche iria ajudar a clarear as suas ideias, a refrescar a cansada memória que não parava um segundo que fosse a relembrar anos e anos de uma vida a dois que agora ... findava...
O tempo passava depressa e aproximava-se a hora de ir trabalhar,contudo pegou no telefone e discou um número...
Do outro lado uma voz masculina respondeu...era o seu patrão...
Hesitou uns segundos , talvez para ter a certeza do que iria dizer e se realmente o queria dizer...
Finalmente e sem hesitações informou o seu patrão que naquele dia não poderia comparecer no seu local de trabalho ,por motivos pessoais que mais tarde lhe explicaria.
Do outro lado a aceitação , seguido de um “Muito Obrigado” por parte de T.
Agora mais descansada , pois um dos “problemas” estava resolvido por agora...
Ouviu-se um “Bom dia Mamã” na escadaria que dava ao andar de cima...
Era a sua filha que acordara entretanto , como era hábito ,pois também a hora de ir para a escola se aproximava.
T.correu para ela , beijou-a na testa e afagou-a carinhosamente:
-Bom dia meu amor, dormis-te bem?
-Sim mamã,e tu?
-Também meu amor... anda ,vamo-nos preparar senão ainda chegamos atrasadas...
-O mano já acordou mamã...
-Sim, já lá vou, agora anda, vamos ao banhinho...
E assim começou aquele dia com um sorriso no rosto , cheia de vontade de tudo , pois a sua força maior estava ali, naqueles tesouros que para si eram tudo ...mais que a própria vida...

I



Sentia-se sózinha na noite que jorrava por si ,lágrimas de sangue que inundavam o seu pensamento numa madrugada de tempestades, onde a sua vida parecia querer jazer ali.
Deitou-se sobre uma cama vazia de corpos,coberta de recordações em cada pedaço que o seu olhar alcançava ,num quarto trancado pelo sofrimento, onde a luz foi propositadamente apagada, para que nem a sua sombra pudesse ser observada.
O silêncio , agora pairava pois o temporal acalmara ,e as lágrimas embora não cessadas ,retiam-se ,ficando salientes no olhar que agora descansava...
Aquela cama...aquele quarto...aquela casa...quantas lembranças... quantas recordações...
onde juraria ter sido feliz um dia...
Falsas juras então seriam estas , pois tantos anos passados e contavam-se pelos dedos das mãos os momentos de felicidade que até então sentiu...
Fez-se adormecer com a certeza que na manhã seguinte ,uma resolução teria que tomar,para a sua vida continuar e que desistir ...estava completamente fora de questão...
Lamúrias de nada serviriam...chorar seus problemas não resolveria, embora cada lágrima que no seu rosto rolava lhe desse o gosto amargo da realidade que estava a sentir no momento, pensando no porquê de tanto sofrer em uma só vida...respostas...não as tinha , mas tinha a certeza de uma só coisa...
Iria acordar com vontade de viver...nem que para tal fosse necessário voltar a nascer...